Por JB Mulatinho
Correspondente do Portal AZ em Simplício Mendes
O padre Geraldo Gereon, pároco da igreja de São Francisco de Assis, na cidade de São Francisco de Assis do Piauí, que fica a 486 quilômetros de Teresina, escreve carta agradecendo as inúmeras ajudas que tem recibo de pessoas que participam da campanha em prol dos agricultores que estão sendo castigados pela seca que assola o município.
Leia na íntegra a carta:
São Francisco de Assis do Piauí-PI. 03- 02 – 2012
Caros irmãos e irmãs,
Nos últimos meses, o nosso município de São Francisco de Assis do Piauí virou, infelizmente, manchete nos meios de comunicação. Primeiro quando se descobriu uma misteriosa constelação burocrática que deixou mais de 800 trabalhadores rurais sem o benefício do Garantia-safra. Segundo, a conseqüência do inverno passado irregular, com grandes perdas de safra, junto com o atraso do novo inverno, que até agora não começou ainda, criou uma situação de fome e sede assustadora. Ao relatar esta situação em rádios, televisão e portais na internet, surgiu uma onda de solidariedade, principalmente na região de Simplício Mendes, Bela Vista do Piauí, Campinas do Piauí e Isaias Coelho, mas também dentro e fora do nosso Estado.
Comovidos pelo sofrimento de tantos pequenos agricultores desse nosso semi-árido piauiense as pessoas colocaram à nossa disposição uma boa quantidade de alimentos e dinheiro. Pudemos assim, organizar a distribuição destes alimentos e um abastecimento de água. Ambas as medidas procuraram selecionar criteriosamente as regiões e comunidades mais atingidas.
A situação mais desesperadora é a falta de água em grandes áreas do município. Pois envolve as famílias e os seus rebanhos, a maioria de pequenos animais (bode, ovelha, porcos e galinha), incapazes de longas caminhadas atrás de água. A nossa região não possui lençóis d’água, os poços são de pouca vazão, às vezes impróprios para consumo humano. Os melhores poços produzem em torno de 5.000 litros por hora, alguns deles não agüentam a demanda elevada e praticamente secam. Apenas três poços têm uma vazão melhor, dois estão no prego e no último abastecem-se quatro caminhões-pipa, três da defesa civil, um da nossa paróquia, sendo os três primeiros só para consumo humano, o nosso para consumo animal. Gastam-se duas horas para encher um tanque de 8.000 litros. Nunca vi uma região onde o povo gasta tanto tempo e esforço com o transporte de água, quase sempre em carroças, com distâncias de até 18 km diários (três caminhos de água de 6 km cada), levantando, às vezes, às 4 horas da manhã e deitando às 11 horas da noite.
Não desconsideramos os benefícios do Governo com os seus programas sociais (Bolsa- família, aposentadorias, carros-pipa). Ai de nós se não tivéssemos isso tudo. Mas os grandes programas sempre deixam determinadas situações sem cobertura. Nesses casos é que nós entramos com o nosso alimento e a água. O alívio é grande Quem caminha oito horas diariamente atrás de água agora só gasta três horas – que grande diferença.
Nós pudemos oferecer este pequeno alívio aos nossos irmãos sofredores, porque muitas pessoas, grupos e entidades nos mandaram as suas doações: alimentos e dinheiro. Os alimentos vieram das regiões mais próximas, principalmente de Simplício Mendes e das cidades vizinhas.
Ainda hoje chegou um saco de feijão do interior de Conceição do Canindé. Também doações em dinheiro vieram da mesma região, mas também de outras cidades: Teresina, Brasília, Rio de Janeiro. O nosso conterrâneo Francis Lopes dedicou o apuro de um show em São Francisco à nossa campanha e nos entregou R$ 2.500,00. Por tudo isso, agradecemos de coração.
A doação que nos deixou particularmente felizes foi uma quantidade grande de alimentos que nos foi entregue pela comunidade da Assembléia de Deus de Simplício Mendes. Foi um sinal forte de que o cuidado pelos irmãos pobres de Jesus une todos os que estão no mesmo caminho do seu evangelho.
Queremos, portanto, deixar o nosso agradecimento a todos pelo carinho com que acolheram a notícia de fome e sede dos nossos irmãos, pela generosidade espontânea que imediatamente deixou em nossas mãos o que pudemos passar para a mesa dos nossos pobres agricultores, no momento da sua maior aflição. Agradecemos a todos que, com rapidez e eficiência, divulgaram o grito de socorro pelos meios de comunicação, principalmente a nossa querida Rádio Mafrense, a TV Clube e os inúmeros internautas da internet. Agradecemos de coração aos pobres que tirara da sua pobreza uma pequena ponta pelos irmãos mais pobres ainda: uma rapadura, uma latinha de sardinha, um quilo se sal, um prato de farinha. Nessa semana queremos encerrar a distribuição desses alimentos. Na mesa onde os pobres comem, sobem também as orações por todos os generosos doadores. O transporte de água vai continuar ainda – enquanto não chove, a calamidade vai se agravando cada dia mais. Que o bom Pai no céu nos mande logo a tão esperada chuva.
No primeiro dia da distribuição dos alimentos fiz uma observação interessante: as pessoas que saíram carregando as suas doações – nas costas, na cabeça, na bicicleta, na carroça – andaram com um largo sorriso, felizes da vida, cheias de gratidão. Quero passar este sorriso pra vocês todos. É um sinal de muita esperança para todos nós. O nosso abraço fraterno para todos vocês.
A comunidade de São Francisco de Assis do Piauí e o irmão em Cristo Padre Geraldo