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Serenidade e Cólera

quinta, 02 de fevereiro de 2012 • 07:20

Se a pessoa não consegue dominar seus ímpetos negativos, sua raiva, sua cólera, seu pessimismo, seu azedume, pode parar o que pensa que está fazendo e sair em busca de tratamento psiquiátrico porque está muito doente.

E nada pior para um Povo do que um líder desequilibrado. A história é prodiga em lições sobre os males que os doentes mentais, ora seduzindo, ora intimidando pessoas simples, muitas idealistas, causaram à democracia.

Toda doença, se não tratada a tempo, vai se agravando com o tempo.

É o caso da neurastenia, que primeiro deprime, causando inatividade ou fadiga extrema. Depois excita, submete sua vitima a irrefreáveis devaneios, que só se estancam à custa de muitas asneiras, algumas escritas, outras em voz alta.

O festival de asneiras decorre de uma intensa fadiga intelectual, cobranças familiares, complicações com filhos, isso tudo se associando a um quadro de hipocondria e histeria. É mais grave entre os septuagenários.

Quem viu aquele filme, “A Queda”, sobre os últimos dias de Hitler, pode entender melhor o que se passa com um líder decadente, seus últimos áulicos em derredor fingindo acreditarem em suas verdades e falseando no cumprimento de suas ôcas ordens, muitos alcançando em tempo a lucidez e admitindo, em silencio, mas não escondendo em atitudes, quanto se deixaram iludir por tantas décadas por aquele doente mental.

O mundo lá fora restabelecendo a ordem democrática, seus valores imprescindíveis à convivência humana com decência, respeito, honra e dignidade, e o maluco, mal disfarçando o treme-treme nas pontas dos dedos, encafuado em seu bunker, em Berlim, gritando, dando ordens, mandando enforcar ex aliados, achando que ainda tinha poder e que mandava.

Seu único poder não ia além da vida de sua cadela e de sua própria vida. A cadela ele a envenenou com uma cápsula de cianureto. Sua vida ele a extinguiu com uma bala no céu da boca. Sua ultima ordem, foi a de que lhe incendiassem o corpo. Algumas doenças mentais tem dessas variantes - o orgulho e a soberba ficam até o fim.

A história nos tem ensinado tanto e muitos povos, já bem escabreados, se mostram mais atentos aos déspotas em potencial. Nacionais, estaduais ou municipais, eles sempre existiram e existirão nas diversas modalidades, nas dimensões de suas geografias e ingenuidade, ignorância ou boa fé das pessoas influentes.

Político não deve ser empresário. Nem os seus mais próximos consangüíneos. Os interesses privados de quem têm acesso privilegiado aos meandros do poder prejudicam a livre concorrência, um dos pilares da atividade econômica. Sem liberdade na economia quem perde é a democracia, o Estado social, o povo em geral.

Quando o líder começa a delirar, distanciando-se da realidade, a perder a compostura, a esbravejar, a querer impor suas versões esquizofrênicas, achando-se dono das verdades,quem não é comigo não presta, só os meus consangüíneos e os meus áulicos é quem prestam, - quando chega a esse ponto, amiga, amigo, só chamando aquele doutor de touca branca e avental branco e mandar internar.

Não é uma questão de decrepitude. Estar velho não significa necessariamente estar decrépito. É uma questão de grave doença mental, mesmo. Na Roma antiga, o Regimento Interno do Senado impedia o senador de discursar e de votar se ele perdesse a serenidade. Valia como prova de que havia perdido a razão.

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Estrelas Errantes

quarta, 25 de janeiro de 2012 • 17:04

Os gregos inventaram a democracia, o governo do maior número, ou seja a maioria decidindo, mas respeitando a minoria, democracia que no dizer de Churchill ainda é o pior dos regimes sendo que depois dos gregos, até hoje, ninguém inventou nada melhor.

Acuada pelas minorias armadas de outros meios de convencimento, algum poder estatal com mídia influente e muito dinheiro, a democracia cambaleia e não se afirma e não realiza a república se não for oxigenada pela vontade coletiva majoritária capaz de dobrar pelo entusiasmo as resistências e intimidações.

Vitoriosa a democracia com a consistência das suas proposições e credibilidade popular dos seus combatentes instaura-se então o regime do povo, pelo povo e para o povo, assim definido por Lincoln.

Nas monarquias anacrônicas o poder se realiza e se restringe aos laços da consangüinidade.

Nas famílias mafiosas a regra não é absoluta, mas é assim também quase sempre.

Nas oligarquias o poder se sustenta nas espertezas de uma promiscuidade de parentes, áulicos e negocistas, todos aproveitadores.

Nas ditaduras, as camarilhas.

Isso tudo aflora até mesmo como erva daninha em nascentes democracias para depois se transformar numa sucuri envolvente que por constrição segue matando-a lentamente.

Se a maioria do povo não está motivada e possuída de energias positivas suficientes para garantirem a força necessária aos embates que são constantes, o clientelismo, o assistencialismo, o populismo, e se isso for pouco, a grana, muita grana tocará mais alto nas fraquezas gerais e aí adeus rosa, necas de democracia.

Mas por que essa insistência no mundo por democracia? Porque só na democracia quando plena é possível a igualdade de direitos e de oportunidades. A democracia realiza a justiça social.

Só a democracia garante a república e só com a república plena que as oligarquias, as máfias e as camarilhas não têm voz nem vez. A democracia não faz concessões à impunidade.

Em alguns quadrantes do País, que se revela positivamente em melhorias das condições de vida do povo, senhor de suas liberdades e do seu destino, em alguns quadrantes, em especial no litoral nordeste, ainda vicejam maus exemplos de políticos que só atravancam a democracia e mutilam impiedosamente a república.

As eleições são livres? Sim, mas só na formalidade do imaginário.

Compram-se votos no atacado em feiras inimagináveis não só favores do poder público e dinheiro vivo, porém muito e principalmente com toneladas de medo.

Aos descrentes que já estão quase se dando por vencidos e dizendo que isto aqui não tem mais jeito, eu peço que busquem reencontrar bem dentro de si mesmos aquela velha certeza de que nem tudo está perdido.

Há estrelas por aí vagando, querendo ocupar os espaços do espaço, umas batendo nas outras, querendo todas o mesmo lugar de brilho. Acham que nunca irão cair. Estrelas não têm brilho próprio.

Irão despencar na praia e nem há grãozinhos de areia de olho nelas.

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Nada Além

quinta, 19 de janeiro de 2012 • 09:22

Quem não reage lisonjeado ante o reconhecimento público de alguma coisa boa pela qual se empenhou tanto e fez?

Às vezes nem é uma construção demorada ou uma história de vida marcada por atitudes ímpares.

Pelé não se notabilizou apenas como o bom exemplo de atleta, mas sobretudo pela lição que legou – essa de que fazendo o milésimo gol a pessoa deve sair do campo o quanto antes.

Muitos porque nem sabem a melhor hora de entrar em cena passam sem que tenham sido ao menos notados.

Augusto Matraga, personagem de Guimaraes Rosa, num dos contos de Sagarana, celebrizou-se, a meu ver, por esta frase – “Todo homem tem a sua hora e a sua vez”. Não sei se Geraldo Vandré quis foi responder – “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

Vandré ao perder para Tom Jobim e Chico Buarque o primeiro lugar no Festival Internacional da Canção de 1968 e vendo os dois sendo humilhados por estrondosa vaia saiu em defesa deles – “Calma gente, a vida não se resume a festivais”.

Em seguida mandou o seu “Para Não Dizer que Não Falei de Flores”, segundo colocado na opinião do Júri, mas o primeiro na preferência popular.

Isso prova que nem sempre a opinião da maioria popular é a mais certa. A canção do Tom e do Chico, falando de um sabiá otimista e esperançoso em voltar, evocava assim a volta dos exilados políticos ao Brasil, resumindo-se num dos primeiros hinos em favor da anistia. Um drible digno de um Garrincha à censura dos militares à época.

Já a canção do Vandré, ao contrário, pregava a retirada para o exílio ou para a luta armada – “Vem vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer”.

Daquele redemoinho de incompreensões e radicalismos nas opiniões o que restou mesmo foi o gesto de grande dignidade do Vandré pedindo que ouvissem com a calma o “Sabiá” do Tom e do Chico – “Calma, gente! A vida não se resume a festivais”.

Essa frase do Vandré, para mim, se aplica a tudo na vida.

Mário Lago muito conhecido como ator de teatro e das novelas, ativista político preso algumas vezes na ultima ditadura, com um histórico muito respeitado nos meios intelectuais, disse que seu maior momento de glória pessoal foi quando, numa tarde, no Rio de Janeiro, passando por uma parada de ônibus, ouviu um homem do Povo assobiando uma de suas canções – “Nada além, nada além de uma ilusão...”

As pessoas se eternizam não só pelas batalhas que vencem. Se tornam grandes também pelas renuncias que realizam.

Winston Churchill, tendo liderado a vitória da Inglaterra contra o nazi-fascismo na segunda guerra mundial, não obstante, em seguida, perdeu as eleições e foi levar sua renúncia ao cargo de

Primeiro Ministro ao Rei Eduardo VIII.

O Rei lamentou muito a derrota eleitoral de Winston e fez questão de recompensá-lo pelos relevantes serviços à Pátria. Falou que iria condecorá-lo com a Ordem da Jarreteira, a mais alta comenda que um monarca pode conceder a um herói no Reino Unido. O ainda Primeiro Ministro agradeceu recusando. Falou que o Povo inglês já havia lhe outorgado uma ordem mais forte – a "Ordem do Pontapé..."

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Comendas

quinta, 12 de janeiro de 2012 • 09:27

Eu era ainda um garoto e não sabia nada sobre comendas até que um dia vendo uma sobre a mesa do Professor Mario Meireles perguntei e ele então me explicou.

É coisa do século XII e tem a ver com as Cruzadas e a retomada da Península Ibérica pelos cristãos. Daí que mais tarde, inclusive via bulas papais, surgiram as Ordens, umas militares, outras de cavalaria.

Pedro Álvares Cabral, por exemplo, era cavaleiro da Ordem de Cristo. Aquela bandeira branca com a cruz vermelha no centro era o estandarte da Ordem de Cristo. As Ordens então se disseminaram pela Europa que as estenderam também por suas Colônias.

E essa comenda aí sobre a mesa? Provoquei o Professor Meireles. Ah essa o Graça Aranha recebeu por sua participação na Semana de Arte Moderna e alguém da família quer vender.

No Brasil sob o Império as Ordens nem eram tantas e não eram muitos os escolhidos para integrá-las. Comendador era um Rui Barbosa, um Cândido Mendes, um Dias Vieira.

Mas dos primórdios da República aos dias de hoje tantas são as Ordens civis e militares, federais, estaduais e municipais, que o difícil é não encontrar quem neste momento neste País não esteja recebendo alguma comenda, merecendo, por isso, o epíteto de Comendador.

Essas distinções geralmente, em tese, se destinam a homenagear em preito de reconhecimento uma pessoa por alguma contribuição em favor da humanidade, seja na ciência, na pesquisa, na cultura, na administração, na paz em geral.

Desde a origem e por muitos séculos, as Ordens eram extremamente rigorosas e não admitiam em seus quadros ninguém que não fosse absolutamente ficha limpa e sem qualquer mancha na linhagem familiar.

Em Portugal, essas exigências eram facilitadas, e em muitos casos até dispensadas, se o pretendente a ingressar na Ordem investisse em ações das Companhias do Maranhão e do Grão Pará. Garantiam para si direitos que iam além dos seus filhos.

A comenda, tradicionalmente, era assim uma forma de recompensa pelos bons serviços prestados como no caso dos Juízes que serviam ao Rei e de outros funcionários que bem serviam ao Estado.

Num canto do que antes foi a cozinha da casa de Caxias vejo a estante onde estão em caixas luxuosas de varios tamanhos as medalhas, os diplomas as faixas, somando-se a dezenas, as comendas me foram dando no curto intervalo da vida em que exerci o poder.

Toda vez que me cravavam uma medalha no peito do paletó ou me enlaçavam com uma faixa como se eu fosse um Presidente, me lembrava daquela comenda do Graça Aranha que alguém no Maranhão tentou vender ao Professor Mário Meireles.

Comendas têm um valor tão fugaz quanto o poder de quem as recebe.

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Mercadores

quinta, 05 de janeiro de 2012 • 07:00

Difícil encontrar um vigarista que não seja simpático, conversa inteligente, agradável, prestativo, solidário, geralmente bem educado.

Se você baixa um pouco a guarda, quando menos espera ele já adentrou na sua intimidade e para ser intimo não significa necessariamente frequentar sua casa ou sua tenda de trabalho.

O vigarista profissional sabe medir as distancias para a abordagem e avaliar os espaços onde assediar com calma, sem sustos, sua próxima vitima.

Como um prestidigitador, desperta curiosidade, aguça e distrai. Você o acha engraçado e vai lhe dando confiança. Quando o seu bom humor escancara fácil o sorriso, reação natural à piada inteligente, eis chegado o marco da cumplicidade.

O Rio de Janeiro dos velhos tempos em que sediou a Corte na Monarquia e depois, na República, os Poderes da União Federal atraiu também para os seus espaços nobres, não só na politica, muitos vigaristas, vigaristas refinados, assépticos, bem vestidos, alguns até ligeiramente poliglotas e com alguma cultura, ainda que de almanaque.

Um querido amigo, contemporâneo daqueles tempos, me contou sobre uma dessas quão graciosas figuras, a qual acabou quase se enturmando no seu grupo, o qual nos fins de tarde se reunia no Golden Room do Copacabana Palace em happy hour, que em português quer dizer hora feliz.

O cavalheiro contava piadas de humor refinado, mostrava-se bem informado sobre as celebridades hospedadas no hotel e sobre importantes autoridades da República, em especial do Judiciário.

Na hora da conta, quase sempre salgada, o cavalheiro, achando-se bem enturmado, não se levantava fingindo ir ao bathrooms, que em português quer dizer banheiro. Era dos primeiros a sacar a carteira para entrar no rateio. Não havia ainda cartão de crédito.

Quase todos daquela roda eram jornalistas, dissimulando entretenimento, mas na verdade trabalhando. O Golden Room do Copa era o espaço onde muita coisa acontecia e onde era possível se saber de quase tudo. Um manancial.

Um dia alguém perguntou ao simpático cavalheiro, presença marcante naqueles fins de tarde, qual seu ramo de atividade, eis que aparentava viver muito bem, por conseguinte detentor de bom patrimônio, por conseguinte amealhando uma boa renda mensal.

Cravando mistério, o cavalheiro afinal revelou do que vivia. Era vendedor. Vendia voto de Ministros do Supremo. Passava as tardes assistindo aos julgamentos e com o tempo foi montando os perfis ao ponto de quase adivinhar como votaria esse ou aquele.

A segurança jurídica de então ancorada na previsibilidade decorrente da coerência rígida com que cada Ministro votava era o selo de qualidade na mercadoria sempre em alta entre as partes envolvidas nas grandes pendengas.

Daí que essa de empreiteiros no Maranhão comprarem lei estadual de segurança jurídica para os seus negócios me assusta muito como novidade.

Não teria havido aquela engenhosidade lenta e criativa, quase romântica, investindo silenciosamente no perfil e na previsibilidade de cada voto. A compra da maioria legisladora teria sido intermediada, insistem as denuncias, apenas por um. No atacado.

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Noé fortes

noefortes@hotmail.com postado:
18/01/2012 - 09:54
Excelente!
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