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quinta, 05 de janeiro de 2012 • 07:00

Difícil encontrar um vigarista que não seja simpático, conversa inteligente, agradável, prestativo, solidário, geralmente bem educado.

Se você baixa um pouco a guarda, quando menos espera ele já adentrou na sua intimidade e para ser intimo não significa necessariamente frequentar sua casa ou sua tenda de trabalho.

O vigarista profissional sabe medir as distancias para a abordagem e avaliar os espaços onde assediar com calma, sem sustos, sua próxima vitima.

Como um prestidigitador, desperta curiosidade, aguça e distrai. Você o acha engraçado e vai lhe dando confiança. Quando o seu bom humor escancara fácil o sorriso, reação natural à piada inteligente, eis chegado o marco da cumplicidade.

O Rio de Janeiro dos velhos tempos em que sediou a Corte na Monarquia e depois, na República, os Poderes da União Federal atraiu também para os seus espaços nobres, não só na politica, muitos vigaristas, vigaristas refinados, assépticos, bem vestidos, alguns até ligeiramente poliglotas e com alguma cultura, ainda que de almanaque.

Um querido amigo, contemporâneo daqueles tempos, me contou sobre uma dessas quão graciosas figuras, a qual acabou quase se enturmando no seu grupo, o qual nos fins de tarde se reunia no Golden Room do Copacabana Palace em happy hour, que em português quer dizer hora feliz.

O cavalheiro contava piadas de humor refinado, mostrava-se bem informado sobre as celebridades hospedadas no hotel e sobre importantes autoridades da República, em especial do Judiciário.

Na hora da conta, quase sempre salgada, o cavalheiro, achando-se bem enturmado, não se levantava fingindo ir ao bathrooms, que em português quer dizer banheiro. Era dos primeiros a sacar a carteira para entrar no rateio. Não havia ainda cartão de crédito.

Quase todos daquela roda eram jornalistas, dissimulando entretenimento, mas na verdade trabalhando. O Golden Room do Copa era o espaço onde muita coisa acontecia e onde era possível se saber de quase tudo. Um manancial.

Um dia alguém perguntou ao simpático cavalheiro, presença marcante naqueles fins de tarde, qual seu ramo de atividade, eis que aparentava viver muito bem, por conseguinte detentor de bom patrimônio, por conseguinte amealhando uma boa renda mensal.

Cravando mistério, o cavalheiro afinal revelou do que vivia. Era vendedor. Vendia voto de Ministros do Supremo. Passava as tardes assistindo aos julgamentos e com o tempo foi montando os perfis ao ponto de quase adivinhar como votaria esse ou aquele.

A segurança jurídica de então ancorada na previsibilidade decorrente da coerência rígida com que cada Ministro votava era o selo de qualidade na mercadoria sempre em alta entre as partes envolvidas nas grandes pendengas.

Daí que essa de empreiteiros no Maranhão comprarem lei estadual de segurança jurídica para os seus negócios me assusta muito como novidade.

Não teria havido aquela engenhosidade lenta e criativa, quase romântica, investindo silenciosamente no perfil e na previsibilidade de cada voto. A compra da maioria legisladora teria sido intermediada, insistem as denuncias, apenas por um. No atacado.

Comentários

Noé fortes

noefortes@hotmail.com postado:
18/01/2012 - 09:54
Excelente!

Boa Vontade

quinta, 29 de dezembro de 2011 • 07:00

Que tal a gente, nesse ensejo das entradas, começar o ano novo revendo algumas coisas, para com os pés no chão, humildemente, reconhecer que mais poderíamos ter feito pelo bem dos outros se antes de dizer não a gente tivesse esgotado todas as possibilidades de dizer sim?

Por que esse compromisso com o bem dos outros? É que se os outros são bem atendidos e estão satisfeitos, as sementes da harmonia se disseminam, as geleiras da indiferença e da insensatez se diluem, a tolerância se impõe, a compreensão convoca as alegrias.

Assim vamos fazendo a nossa parte na construção da paz.

Não é só com as guerras que se deteriora a paz. A toda hora de todo dia no trabalho, nas compras, nas filas, no transito, em atitudes de arrogância quase instintiva, cedemos espaços aos demônios do ódio e do medo e, por tabela, nos alistamos na grande legião anônima dos inimigos da paz.

Os territórios da paz são o reino de Deus. Realizar a paz é missão indeclinável à obra de Deus. Por isso, quando nos perguntam como vão as coisas, e se estamos na certeza de que está tudo bem, respondemos – na Paz de Deus!

Precisamos primeiro, trazer Deus para dentro de nós. Assim, nesse convívio silencioso, aprendendo a amar, a compreender, a tolerar, afirmando a fé, resgatamos as esperanças e com elas as forças para vencer as labutas e as energias para merecer as alegrias de viver.

As alegrias de viver não são indissociáveis das vitórias nas lutas contra os outros. Lutar contra os outros apenas porque eles são os outros e vence-los não traduz vitória se a paz depois da luta não se realiza.

A vida precisa de harmonia para ser plena. Podemos e até devemos nos dividir, sim, mas apenas no campo das ideias. Combate-se uma ideia com outra ideia. Debatendo. A ideia mais benfazeja vencerá.

A força bruta contra a ideia é a guerra, é a reação totalitária, é bala perfurando a carne, é a injúria a violentando a honra, é a covardia, é a desunião revelando o déspota que segue se impondo sobre os escombros dos princípios morais e dos valores éticos, renegando os avanços da civilização.

Proponho, ao ensejo dessas novas entradas, um novo começo assumindo-nos em uma nova e única atitude perante os outros – a realização da paz entre nós todos pela prática da boa vontade. Não foi ele, o Todo Poderoso da nossa fé, Quem, pela voz dos anjos, nos mandou dizer – Paz na terra às mulheres e aos homens de boa vontade?

As nossas atitudes tem sido, no dia a dia, de muita má vontade. Aborrecemo-nos facilmente por qualquer coisa e isso nos vai corroendo no amor aos outros como se a nossa autoestima se alimentasse só das maldades que só a má vontade pode produzir.

É sempre mais fácil dizer não do que realizar o sim. O não simplesmente, logo de saída, é a má vontade. O sorriso mecânico e a voz afetada de falso afeto são também produtos bem acabados da má vontade.

No primeiro passo sempre achamos que a jornada vai ser longa. Mas se estamos determinados, sabendo o que queremos e onde iremos chegar, vai dar certo. Sem boa vontade ninguém vai longe.

Com a nossa boa vontade e a boa vontade dos outros, essas boas vontades se somando, vai dar certo. Tudo certo.

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Genros

quinta, 15 de dezembro de 2011 • 14:00

Só porque o genro do Rei da Espanha andou fazendo, dizem, coisas que não deveria ter feito com o dinheiro público, vamos então demonizar os genros?

Houve um tempo em que os homens até rezavam para que os filhos a caminho nascessem homens, o que tinha a ver, parece, com os costumes monárquicos.

Mulher era sinônimo de genro. Soava a maldição. Nesse quesito, são incontáveis, nos dois sentidos, as histórias.

William Somerset Maugham, consagrado autor de “A Servidão Humana”, foi entrevistar Winston Churchill, Primeiro Ministro e Chefe do Almirantado inglês, assim que acabou a segunda guerra mundial.

Quase esgotado o estoque de perguntas, Maugham fez esta - qual o homem que o senhor mais admira? Benito Mussolini. Maugham, que era gago, ficou estupefato. Mas por que? Teve coragem de mandar matar o genro, respondeu Churchill.

Menelau era genro de Tíndaro. Orestes era genro de Menelau. Lacedemon era genro de Eurotes. Genros gentes boas, bem comportados.

Se Páris, um mulherengo danado, filho do rei de Tróia, não tivesse bulido com Helena, a mulher de Menelau, aquela guerra e nem aquele cavalão de madeira jamais teriam acontecido.

Com Orestes, filho de Agamenon e genro de Menelau, a história é mais comprida. Na volta da guerra de Tróia, Agamenon foi morto por Clitemnestra e seu amante, Egisto.

Suspeitando ser o próximo da lista, Orestes buscou proteção na corte de Estrófio até que depois, já adulto, sob as ordens de Apolo, partiu para matar a própria mãe, crime do qual acabou absolvido por voto de desempate.

Outra vez Apolo, aquele terrível, monitorando Orestes mandou que ele fosse a Táurida roubar a estatua de Ártemis e devolve-la a Atenas. Novamente preso e condenado, foi salvo por Ifigênia, sua irmã.

Enfim, Orestes herdou o trono de Agamenon, reinou por muito tempo e morreu aos 90 anos, picado por uma serpente. Não teve genro.

Semana passada o genro da Princesa Anne, da Inglaterra, Mike Tindall, casado Zara Phillips, foi excluído da seleção inglesa de rúgbi e sancionado com multa de 25 mil libras por violar o Código de Ética do time. Após uma partida pelo mundial, na Nova Zelandia, o Mike encheu a cara num bar passando a protagonizar cenas lascivas com uma ex-namorada.

O genro do Rei da Espanha era jogador de handebol quando conheceu a infanta Cristina. Ingresso na família real, ganhou o título de Duque de Palma. Contrariando o sogro, mas com o apoio discreto da sogra, foi para o mundo dos negócios. Hoje é acusado de desvios de verbas publicas, contratos sem licitação com governos regionais, grana em paraísos fiscais e rombo de mais de 6 milhões de euros.

Sobre o genro do Dom Pedro, o nosso segundo Imperador, o Conde Deu, a história do Brasil não conta nada sobre o que ele tenha recebido ilicitamente ou mesmo dado de graça.

Os genros do povo em geral são os melhores, dizem quase todos os seus sogros, garantem todas as sogras. Já os genros da coisa pública, nada a ver. Sai de perto.

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Livros

quinta, 08 de dezembro de 2011 • 07:25

Você separa os livros que já leu os quais tendo gostado tanto quer passá-los adiante, presentear a algum amigo, doar a alguma biblioteca.

Livro no Brasil, além de ser ainda um produto muito caro, na comparação com outros países, é produto de alta rotatividade.

Você se agrada de algum titulo hoje numa livraria, mas lembra que tem uma fila em casa esperando leitura e resolve então deixar para comprar depois.

Um dia quando você volta o livro desejado foi tirado da vitrine, passou à prateleira e se você demora logo mais nem na prateleira vai estar.

Eu não sabia que aqueles espaços de maior visibilidade são alugados, as editoras ou os autores pagam para que seus livros sejam vistos. Se não atraem compradores vão sendo tirados das exposições até que não constem mais nem nos catálogos.

Lembro de um dos primeiros livros do Paulo Coelho, O Alquimista, se bem me lembro, sendo vendido nas bancas em São Paulo numa edição de capa preta e muito mequetrefe. Não desistiu e teve a sorte de ser traduzido lá fora.

E assim só depois que foi sucesso de vendas lá fora começou a ser conhecido no Brasil. Hoje não há uma livraria no mundo sem a coleção dos livros do Paulo Coelho em lugar visível e vendendo muito. Tempos se passaram para que fosse levado a sério aqui no Brasil.

O mesmo se deu, e ainda se dá, com muitos dos nossos músicos. A bossa nova fez sucesso primeiro nos Estados Unidos, foi muito desdenhada no Brasil, até que com a ida de Tom Jobim e João Gilberto para Nova Iorque onde moraram por um bom tempo, começasse a ser mais assimilada por estas bandas.

Quando tocou o telefone num famoso bar de Ipanema, no qual Tom Jobim dividia como sócio com Carlinhos de Oliveira e Vinicius uma garrafa de uísque cujo conteúdo eles sorviam gota a gota dia a dia, e a voz do outro lado falou que era o Sinatra de Nova Iorque querendo falar com o Tom, todos daquela hora caíram na gargalhada e o próprio Tom, meio encabulado, achou que era trote.

E não era trote coisa nenhuma. Era o Sinatra mesmo, o Frank Sinatra, querendo gravar um disco só de bossa nova com o Tom Jobim.

Hoje eu ligo a TV e ate o Mac Tyson aparece cantando a Garota de Ipanema, acompanhado ao piano por um dos netos do Tom Jobim. Sintonizo no computador uma rádio nos Estados Unidos dessas que só tocam jazz e volta e meia ouço bossa nova brasileira.

Quanto ao livro não tem sido fácil para os nossos autores. Nem aqui no Brasil e fora daqui. Como disse, o livro chega à ponta com preço muito alto para o poder aquisitivo do brasileiro alfabetizado. É artigo de luxo.

Os autores estrangeiros são traduzidos aos montes e exibidos nas vitrines e prateleiras das livrarias das grandes cidades, e essas livrarias não são muitas porque vender livros no Brasil, só livros, ainda dá prejuízos.

Temos centenas de milhares de talentosos autores no anonimato, escrevendo enredos para si mesmos. E se quiserem ver seu livro publicado, tem que pagar à editora. E assim as coisas vão ficando danadas e para que minha alma não sucumba na vergonha de ver os livros que eu comprei e li no sebo das calçadas, prefiro ir logo os presenteando aos amigos.

Comentários

Lidiane Valente

lidianevalente@hotmail.com postado:
10/12/2011 - 12:14
Realmente Edson, livro aqui é muito caro e essa sua dica de passar os livros adiante, é muito útil, porque impede que o tempo o destrua e ainda espalha o conhecimento. Abçs

Estações

quinta, 01 de dezembro de 2011 • 05:25

Começo o dia cedo, mas já devendo à vida seis quilômetros de caminhada. Vem chuva muita aí. Então, definitivamente, não vai dar. Sair de casa agora para fazer a caminhada, nem pensar.

À tarde, quando venço aquelas urgências que os outros inventam e nos impõem, e muitas delas até que caberiam melhor em algum outro relógio no dia seguinte, e se não há chuva, me alegro muito.

Alcanço o sol poente e em passos rápidos vou deixando que o mar com sua língua de cão imenso, língua de ondas que se diluem em espumas brancas, alcance os meus pés descalços.

Voltando, meia hora depois, terei pagado à vida mais seis quilômetros de caminhada. Ao todo, doze quilômetros.

Ontem o radiologista me telefonou apreensivo dizendo que a chapa que ele bateu semana antes indicava alguma anormalidade no meu pulmão esquerdo. Na conclusão dele, é claro.

No tira – teima a tomografia computadorizada, mostrando agora os pulmões coloridos, bacanas, parecendo uma pintura moderna, expressionista, dando vontade até de colocá-la numa moldura e pendurá-la num lugar nobre da parede, essa tomografia agora me tira um pouco do sério.

Na pior das hipóteses, imagino, não consigo me imaginar respirando só pela direita. E olha que há mais de quarenta anos odeio cigarro.

A nicotina me pegou quando logo nos primórdios do golpe militar me levaram preso. Eu sofria de um amor platônico pela irmã de um amigo e deu que ela um dia, na companhia da mãe, numa tarde de visitas, me apareceu deixando-me de presente, adivinha aí, um pacote de cigarros.

Cigarro aceso entre o indicador e o polegar, pensando nela, quanta sorte eu tenho, vejo hoje, me sentia o próprio Fernando Pessoa nestes versos:

“E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria. / (...) Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando. / ( Ah se eu casasse com a filha da minha lavadeira... Talvez fosse feliz.) /Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou á janela.”

Depois, no poder, numa noite num jantar, o Lula me ofereceu um charuto, eu recusei gentilmente, ele me disse que era menos ofensivo, eu acrescentei, porém mais caros, ele me disse que caros que nada e me deu a pista. Quando souberem que gostas, receberás de presente. Não deu outra.

Até de Cuba ganhei caixas de charutos. O Emerson Fittipaldi me visitando uma vez me presenteou com charutos de sua grife. Todos os charutos que me davam, eu os repassava ao Lula.

Há mais de quarenta anos que eu me libertei do tabaco. Há mais de quarenta anos que tenho horror a fumaça de cigarro, a bafo de nicotina e tenho pena dessas meninas que eu vejo por aí fumando e das mulheres no geral de voz grossa que até são fortes noutros embates, menos nesse de largar de fumar.

O que eu devo ter no pulmão esquerdo é um resto de tango argentino que eu aspirei numa noite na Avenida Corrientes, tango o qual, um dia, na volta ao Maranhão acabarei de cantar.

Agora aqui da janela do meu quarto eu vejo as nuvens trazendo as chuvas, mas por decreto estamos no verão. O horário é de verão.

Agora na Ilha do Amor, São Luis do Maranhão, onde chove quase o ano inteiro, os movimentos sociais anunciam o começo da primavera. Uma primavera tipo carnaval fora de época. Com muitas emoções fortes e esperanças bastante verdes. Que nem essa que ultimamente vem derrubando ditaduras e oligarquias no mundo árabe.

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