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Um Banho no Rio Negro

terça, 10 de abril de 2012 • 18:14

Nessa época eu ganhava a vida como guia turístico freelance. Foi uma das atividades que mais me deu prazer. Além de ganhar um bom dinheiro eu aprendi a falar diversas línguas. A convivência com os “gringos” o diálogo adequado a um sem-número de idiomas deu-me uma relativa fluência verbal e gramatical no inglês, no francês, no espanhol e no italiano, idiomas como o japonês e o árabe ficaram restritos a três ou quatro falas de saudação, cumprimento e agradecimento.

Comigo na embarcação estavam três senhores de idade avançada, provenientes da Bahia, que exigiram embarcar na aventura de desbravar as caudalosas águas do Rio Negro, com seus banzeiros engolidores de navegadores inexperientes. Mas acontece que eu, lembrem, que sou da região, entendendo bem à beça conduzir o casco de alumínio com capacidade para até oito pessoas folgado. As três velhas soteropolitanas manifestaram o desejo de conhecer, a aquela época famosa Janauarilandia, como chamavam o hotel flutuante ancorado no lago Janauari, tão perto de Manaus que dava pra ver de lá as luzes da fervilhante capital da Zona Franca, destino de milhões de turistas em redor do mundo.

Aportamos no local do hotel flutuante em plena recepção da casa de cômodos. Dias atrás eu ali estivera com duas famílias de italianos que lembraram de sua famosa Veneza ao desembarcar na exótica hospedaria. Sim, porque todo o hotel era feito de madeira; macacaúba, cedro e magno forravam, sustentavam e enfeitavam o complexo de três andares, erguidos sobre uma vasta jangada de toras de castanheiras e pau d`arco. Além do hotel havia um bar e restaurante que eram abertos ao público aventureiro das vagas rionegrinas, que desejasse comer boa comida amazônica.

Foi para esse local que levei as matronas endinheiradas para saboreio da iguaria sem igual que é o pirarucu, o maior peixe de escamas do globo terrestre. Pedimos a caldeirada e um bom vinho branco. As mulheres eram irmãs, donas de um império de cacau na Bahia e vinham de lá muito querendo se embrenhar na mata virgem, disseram elas, depois de dois ou três copos de um excelente Frascati. Com as línguas soltas, elas acabaram por trocar receitas com a mulher da mesa ao lado, uma espanhola de San Sebastian, nos países bascos. A mulher disse que o marido estava no quarto se vestindo para um passeio na capital, talvez fizessem um tour ao encontro das águas. As baianas como trazem consigo os espíritos da hospitalidade logo se ofereceram para levá-los de volta ao cais em Manaus para que economizassem o frete exclusivo, caríssimo, cerca de duzentos dólares. O almoço foi adorável até que as brasileiras já meio de pileque pedirem pra que as conduzissem de volta ao Hotel Amazonas, o mais chique aquela época.

Ao casal foi permitindo embarque na frente, entretanto, para embarcar tinha-se que caminhar por uma comprida tábua. No momento em que o casal estava prestes a pular para bordo eu falei-lhes a guisa de fotografá-las: Um rato, eu disse e foi o bastante pras velhas baianas darem um grito unissomo e todas se precipitaram nas traiçoeiras águas do rio amazônico, graças a Deus conseguimos tira-las da água. Mas; e pra explicar depois que ‘’rato’’ em espanhol quer dizer “um momento”, em português.

 

 

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Agradecimento

segunda, 26 de março de 2012 • 15:06

Nossos agradecimentos para os amigos da Artconstruções, comandados pelo Ze Filho que nos enviam suas impressões acerca de nossa labuta na literatura deste torrão. Os mesmos me fizeram feliz ao máximo e aqui fica o registro.

Comentários

O Crime não Compensa

quarta, 21 de março de 2012 • 18:44

Ele estava deitado na chase long da biblioteca da imensa mansão que atualmente ocupava, num bairro elegante da metrópole. Os noticiários das tevês, tanto da rede aberta quanto daquelas à cabo, somente davam conta de crimes, catástrofes e eventos afins. Procurava assistir um filme, mas nenhum titulo interessava ao nosso personagem – escritor, passado dos setenta, ainda vigoroso fisica e mentalmente. Ele escrevera diversos livros de sucesso e conquistara o bastante em dinheiro para por fim desfrutar do melhor que a vida oferece. Por último comprara essa mansão para abrigá-lo quando estivesse no Brasil. JR Flores, em verdade José de Ribamar Flores, tinha experimentado o sucesso e dele soubera tirar proveito – diferentemente de seus contemporâneos, que desperdiçaram todo o ganho em frivolidades, mulheres, jogos bebidas e drogas.

O facho de luz da tevê, que iluminava parcialmente a sala apagou-se, acionado o controle remoto as luzes da sala se acenderam, e o escritor levantou-se sem esforço indo até onde estava instalado o toca-discos digital. Observou as pilhas de CDs ali depositados e raciocinou um pouco sobre o que seria conveniente ouvir na ocasião.

Nem a propósito vieram-lhe à mente os noticiários que acabava de descartar e decidiu:

- Já que o assunto é crime – disse consigo mesmo -, vamos de Chico...

Um cd foi inserido no prato e depois do comando de Ernesto iniciou a irradiar o som dos acordes iniciais da canção de Chico Buarque. ‘’Feita como advertência para essa bandidagem em geral’’, pensou, enquanto servia-se de uma generosa dose do excelente  conhaque Courvoisieur.

A música dizia mais ou menos o seguinte:

 

‘’Se tu falas muitas palavras sutis

  Se gostas de senhas, sussurros, ardis.

 A lei tem ouvidos, para te delatar

Nas pedras do teu próprio lar. ’’

 

O instrumental extraordinário entremeia as estrofes da poesia.

 

‘’Se trazes no bolso, a contravenção

Muambas, baganas, e nem um tostão

A lei te vigia, bandido infeliz

Com seus olhos de raio X. ‘’

 

E por aí vai:

 

‘’Se vives nas sombras, freqüentas porões

Se tramas assaltos, ou revoluções

A lei logo vai te agarrar, infrator

Com seus braços de estivador. ‘’

 

‘’Se definitivamente, a sociedade

Só te tem desprezo e horror

Se mesmo nas galeras és nocivo, és um tumor.

A lei fecha o livro, te pregam na cruz

Depois chamam os urubus. ’’

 

‘’E se pensas que pensas

Estás redondamente enganado

Como já disse o dr Oeiras vem vindo aí

Junto com o delegado... ’’

Nosso ouvinte já cochilava roncando baixinho na chase long.

 

 

 

 

 

Comentários

Jussara Vieira

jussara@ig.com.br postado:
03/04/2012 - 15:36
Realmente o Crime não Compensa. O autor foi muito feliz em homenagear o astro Chico Buarque.

Tati

tatianafliper@hotmail.com postado:
26/03/2012 - 15:12
Sem dúvida é o que precisa nesses blogs:literatura.

Convivência Deficiente

quarta, 14 de março de 2012 • 14:09

Num apartamento no ribeirinho bairro dos Educandos, em Manaus, viveram dois amigos, ambos homossexuais assumidos e, por ironia do destino, portadores de deficiência física. Um perderá na juventude a visão e o outro tivera amputadas ambas as pernas devido a um acidente automobilístico. A cegueira desse primeiro nunca ficara sabida sua motivação, pois a “bicha” nunca contara a amiga como se dera, inclusive evitavam comentar essa delicada questão.

As pernas da outra “mona” haviam sido esmagadas por ocasião da colisão do carro que dirigia, com um poste no cruzamento da avenida Constantino Nery com o Boulevard Amazonas. A “biba” perderá o controle de direção, subiu o passeio, somente vindo a parar ao encontrar pela frente o poste de iluminação da CEM – Cia de Eletricidade de Manaus. A perícia e os exames médicos denunciaam que “ela” dirigia em alta velocidade, sob o efeito de psicotrópicos, soube-se mais tarde que o “bofe” a abandonara e num surto psicótico a “louca” jogara propositadatamente o veículo contra o poste. O desastre tirará apenas o andar, dizia a “maricona” sempre que se ventilava esse período da vida “dela”e respondia que a vida continuava e que era bom viver.

Essa descontração, esse otimismo pela vida, esse bom humor, motivava na “outra” um verdadeiro ódio da “uma”. A “cega” nada dizia quanto era bom viver, “aquela lengalenga de quem enxerga”, pensava, rilhando os dentes, sentada, tricotando no sofá da sala do apê. Mas nessa tarde a “outra” extrapolava suspensa no tamborete, de joelhos dobrados sobre os tocos ela olhava a rua pela janela. A “bicha” falava do sol que estava quase a se pôr no horizonte e das nuvens que de vez por outra passavam, qual espumas no céu. A cega odiava a descrição daquilo que “ela” nunca mais teria o prazer de admirar. Maldizendo a “aleijada” em silêncio, tornou a se ocupar com o tricô.

Nesse instante a voz da “outra” na janela, soou com maior empolgação. A cega conhecia a mudança do timbre e do tom da voz de tenor da “amiga”.

- Bicha, eu estou passada, disse ela, tá passando por aqui um bofão lindíssimo, continuou a outra, inquieta sobre o banco (dava pra escutar os ruídos que fazia se mexendo). Quer que lhe passe os detalhes biométricos?

- Não, quase gritou a cega, novamente lançando de lado a peça de lã. Não quero, repetiu acentuando cada sílaba.

- Poxa, eu pensei...

- Pois não pense, disse a cega com altive na voz. Ao invés disso, ajuntou maldosamente: Corra atrás, viado.

Comentários

Fernando

Fernalmeida@bol.com.br postado:
03/04/2012 - 15:30
Gostaria de parabenizar o portal pelo apoio a cultura. isso é difícil nos dis de hoje.

Fernando

Fernalmeida@bol.com.br postado:
03/04/2012 - 15:30
Gostaria de parabenizar o portal pelo apoio a cultura. isso é difícil nos dis de hoje.

Fernando

Fernalmeida@bol.com.br postado:
03/04/2012 - 15:30
Gostaria de parabenizar o portal pelo apoio a cultura. isso é difícil nos dis de hoje.

Relógio não é sabonete

quarta, 14 de março de 2012 • 13:51

O velho era ranheta ao extremo. Todos na região sabiam-no homem de maus bofes, sujeito de poucas palavras e pavio curto. Melquiades, era o seu nome, mas toda a população do lugar o chamava de Seu Kid.

Certa tarde de verão Seu Kid caminhava sob o sol causticante do sertão, a caminho de casa. Ele voltava do banco, no centro, onde fora receber a aposentadoria que conquistara após

décadas de contribuição ao instituto de seguridade social. Alcançou a rua do comércio e por ela ainda caminhou três quadras para enfim  desembocar  na rua onde estava situada a velha morada – dividida com Iracema, ou dona Cema, esposa e companheira  de mais de quarenta anos. Casará com Iracema após seis meses de namoro, pois temeu a rejeição eterna das mulheres. O gênio dele afastava as pretendentes e isso na juventude o alarmara de tal maneira que no momento em que conheceu Iracema disse para si mesmo que seria tolerante ao máximo pra dar certo; e assim foi, depois de seis meses de namoro, nos quais se procurou manter cordato e solícito acabou acontecendo o enlace na igrejinha do lugar  e desde lá Seu Kid esqueceu que existiam outras mulheres  no mundo. Nisso temos que dar o braço a torcer em favor do velho – era um homem fiel a sua esposa e família.

                Esperava- o à porta da frente Dona Cema, uma mulher de seus sessenta e tantos anos, cabelos cobertos por um lenço colorido e trazia sobre a bata um avental sujo cujos extremos laterais só não cobriam as fartas ancas, como também deixavam a mostra parte dos enormes seios de matrona italiana. A mulher saudou o marido com genuíno contentamento abraçando-o como de costume e beijando a bochecha que lhe era oferecida . Depois, soltando-o do abraço perscrutou o céu e disse:

                - Tá fechando o tempo. Será que chove meu velho?

             - Minha velha eu tô vindo do banco, não é do céu –, respondeu-lhe Seu Kid, e entrou no barraco.

            Dentro de casa encontrou o neto, um menino batizado Melquiades, em sua homenagem que correu para abraçá-lo afetuosamente.

            - Bença, vô!

            - Deus te faça feliz, filho – disse-lhe, enquanto apresentava-lhe um pacotinho de papel brilhoso. Seu Kid sentou-se perscrutando a atitude da criança no abrir do presente. Um relógio foi revelado do seu esconderijo e causou verdadeira exultação no neto.

            - Vô – perguntou, depois de um curto tempo. – Posso tomar banho com ele?

            - Meu filho eu dei a você foi um relógio e não um sabonete – e levantou-se indo banhar-se para depois almoçar

Comentários

rogeriofilho10@live.com postado:
26/03/2012 - 15:13
Essa tirada do escritor é de dar dor de barriga de tanto rir. Quer ler mais.

rogeriofilho10@live.com postado:
26/03/2012 - 15:13
Essa tirada do escritor é de dar dor de barriga de tanto rir. Quer ler mais.
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