Na manhã do dia 27 de março de 1946, antes dos franceses passarem do mercado público para o palácio do governo, o apito das barcas do sul acordou o frade que tocava o sino da igreja São Benedito. Àquela hora, toda gente pobre saciava sede e fome, na rua da Chapada, que desaguava do Parnaíba, instante em que os vapores do sul despachavam os cereais para dar trabalho ao batalhão de meninos pedintes que se aglomerava no cais do porto da Capital Inventada.
Do outro lado do Parnaíba, havia um garoto paupérrimo como todos os outros, mas era singular, não pedia esmolas, não sabia nadar e odiava os peixes graúdos trazidos pelas barcas do sul. O pai era inválido pelo álcool e a mãe costurava uniformes para os trabalhadores do Porto do outro lado do rio, na Capital Inventada. Era Sergio Mendes Pinguinho, aos onze anos de idade, recluso em Flores de Timon.
Sérgio Mendes Pinguinho sabia que não haveria futuro algum para dispor, quando a miséria ao alcance da mão ser refazia em dívidas a pagar com a vida e a morte. No dia 23 de março de 1946 fora impedido de pegar carona nas barcas para ir levar comida para a mãe, na fábrica de roupas dos Carcamanos. Percebeu que por não saber pedir esmola não merecia caridade ou respeito. Doente de febre e tristeza ao saber que a mãe trabalharia com fome todo o dia porque não era capaz de entregar a marmita diária sonhou que deveria partir para longe do porto, e pela primeira vez entrar sozinho nas águas do Parnaíba. Deveria construir um barco e por própria conta e risco levar suprimentos à mãe resignada.
No sonho o método foi revelado por uma antiga moradora da Rua da Chapada, vinha do garoto Sérgio Mendes Pinguinho, um velha escrava por nome Niá que revelou em sonho a construção de um barco de madeira cuja montagem deveria ser feita em apenas três dias. Ainda segundo o sonho o barco deveria ser colocado n’água ao raiar do quarto dia – quando da primeira navegação. Deste dia em diante, se Sérgio sobrevivesse à tempestade do destino não seria importunado, e as águas que ele tanto odiava fariam dele o maior de todos os homens, aquele que conheceria o segredo de São Pedro, o Pescador. Nunca houve sonho tão real quanto aquele.
Furtou madeira dos destroços da Companhia de Navegação em Flores de Timon, as ferramentas foram trazidas às escuras da linha ferroviária que ligavam Timon a São Luis. Projetou sem conhecer, arrematou as bordas, desenhou a proa com esmero e a quilha fez por instinto, observando os barcos destroçados pelas tempestades. Em três dias preparara a navegação e ao amanhecer do dia 27 de março amanhecer, seguiu a profecia rezada no sonho. Deitou o barco na água no primeiro raio de sol. Prostrado de euforia e tremendo de pânico, colocou a comida da mãe sobre a proa do barco.
À primeira hora da manhã, Sergio Mendes Pinguinho se entregou à magia e à obstinação Pôs os pés na água e começou a remar.
O inaudido e inesperado foram ao encontro de Sérgio Mendes Pinguinho. Tão logo saiu da margem maranhense em direção ao Piauí, os apitos das grandes embarcações alertaram que a Barca Saleira quebrara o timão e estava à pique. Não havia mais como voltar, Sérgio já estava longe da terra, posto não saber nadar, teria que chegar ao outro lado, e sendo o barco de uma só quilha, mal feito e pesado, não havia como recuar, nem remá-lo contra corrente sabia.
Pôs toda força nos braços, e pôs todo sentido na outra margem. Já estava em choque ao ver a barca Saleira imergir numa fração de segundo. As duas cidades cortadas pelo Parnaíba estavam em pânico, olhando sem nada fazer aqueles barcos menores sendo tragados ao fundo do rio por conta de estarem todos ancorados à grande Saleira. Os cabos de aço que de uma margem a outra guiavam os pequenos pontões estavam tencionados e prestes a arrebentar, estampidos de pólvora guardada nos barcos pescadores estalavam e explodiam e o Rio era uma tragédia só.
Ao ver Sérgio Mendes Pinguinho dentro do remanso de explosões e barcos tragados para a morte, um antigo marinheiro gritou: “A criança na balsa vai morrer”. As atenções se voltaram para aquele garoto num barco improvisado que desafiava o Parnaíba e a fúria das cordas de comunicação das embarcações que, sendo esticadas e emaranhadas de uma margem à outra, pareciam uma grande teia que tudo afundava.
Lá estava o menino, escapando do hálito de uma tempestade, escapando das cordas à montante e à jusante, chicoteando a superfície do rio, tentando não naufragar com a velocidade alucinante das águas rebeladas daquele 27 de março.
Duas multidões se formaram para ver um menino de onze anos morrer afogado ou decapitado por correntes de aço, pelas cordas de barco, pelas tábuas das canoas que disparavam de uma margem à outra. Sérgio remava tudo que podia, os braços cortavam e sangrava ao roçar dos remos, mas não havia outro meio de sobreviver senão atravessar o redemoinho de madeira e metal.
As pessoas gritavam palavras de ânimo e salve-rainhas, rezavam e pediam para que ele pulasse do barco e morresse sem dor. Os mais sensatos diziam para ele buscar alguma tábua solta e descer rio abaixo, antes que fosse tragado pelo refluxo, mas não havia o que fazer. O menino e o remo não sairiam juntos dali. O garoto entendeu, na última possibilidade de sobrevivência, o recado do sonho proferido pela velha Niá.
Lembrou das aulas de catecismo, e lembrou dos apóstolos, lembrou de cada um deles, mas não lembrava de São Pedro. Quando uma corrente decepou a quilha do barquinho em que estava, sentiu o gosto do sal na água e viu que também já estava à pique. Em desespero levantou a vista e viu a multidão e toda gente encomendar sua alma para o bom velhinho que lhe mostraria a porta do Céu.
Entendeu que não há homem sem fé e não há fé sem prova, como não há prova sem dúvida, e não há dúvida sem medo, e não há medo sem homem. Não acreditava escapar com vida, sendo seu destino à morte, inspirou-se, nos últimos instantes de vida e decidiu morrer lutando, atravessaria até o outro lado do rio porque morto já o era, e mortos não temem.
Não tendo nada a perder, abandonou o remo e se pôs a remar com as mãos e bater na água com os punhos, enquanto os pés serviam como quilha. Então, dominou o impulso da correnteza e atravessou a diferença entre a Física e o milagre, quando chegou à margem aclamado como herói vivo oficial de banzeiro. Deram-lhe o nome de Capitão Capivara, o Destemido, quando às sete horas da manhã do dia 27 de março de 1946 chegou à Capital Inventada, quase sem vida, depois de vencer o destempero da morte nas águas do Parnaíba.
Sergio Mendes Pinguinho, Capitão Capivara, o Destemido, lenda afluente foi e sempre será a maior autoridade náutica que se teve notícia. Morreu velho e feliz, sem, contudo, deixar herdeiro ou sucessor à patente de herói do Velho Monge. Enquanto teve vida, atravessou gratuitamente em seus barcos, estudantes, pedintes e doentes quando precisavam sair do Maranhão em busca de socorro urgente na Capital Inventada. Levou para o túmulo o segredo de São Pedro.
O Hipopótamo, neto de Sertão Bina